Emprego, renda e salário digno para os(as) brasileiros(as). Governo, faça sua parte!

Na manhã do dia 27 de abril, após reunião no Palácio do Alvorada com o presidente da República, e na companhia de Bolsonaro nos portões do palácio, o ministro da Economia, Paulo Guedes afirmou: “Precisamos também que o funcionalismo público mostre que está com o Brasil, que vai fazer um sacrifício pelo Brasil, não vai ficar em casa trancado com a geladeira cheia assistindo à crise enquanto milhões de brasileiros estão perdendo o emprego”. Parece piada de mal gosto, mas não é. No momento em que somos a linha de frente de combate à pandemia do novo coronavírus no Brasil, o governo federal mais uma vez aponta sua lança de preconceitos e de ignorâncias dos fatos ao servidor público.
Ora, senhor ministro, de que funcionalismo público o senhor está falando? Congelar os salários dos médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, agentes comunitárias e todos que estão colocando a saúde e suas vidas em risco para proteger e salvar os brasileiros? Daqueles que percorrem as ruas coletando o lixo para manter as cidades limpas, ou do pessoal da manutenção dos serviços de água e esgoto? Ou, ainda, dos milhões de professores que estão, de suas casas, fazendo todo o tipo de malabarismo possível para conseguir ofertar educação com alguma qualidade, mesmo sem que lhes sejam garantidas condições objetivas para tal?
Nenhum servidor público que conhecemos está em casa com a geladeira cheia, vivendo uma vida de prazeres. Aqueles que estão em seus lares, estão em férias compulsórias e respeitando o distanciamento social recomendado, igual a muitos trabalhadores da iniciativa privada. Ou estão em home office, trabalhando em condições piores que teriam em seus locais de trabalho, e por vezes em jornadas ainda maiores. Se existem esses servidores aos quais o senhor se refere, não somos nós. Não recebemos altos salários. Vivemos a realidade nua e crua da sociedade brasileira. Nós e nossas famílias somos afetados pelas mesmas crises e urgências.
Além de vender uma falsa imagem do servidor, essas reiteradas falas de governantes, seja em Brasília ou aqui em nossas cidades, demonstram total desconexão com a realidade. Se é necessário medidas econômicas e sanitárias para enfrentar essa crise, elas passam com certeza por colocar dinheiro a circular na economia real das cidades – não pelos bancos, ou mediante a suspensão de contratos de trabalho, diminuição de jornadas e salários e aumento do desemprego na iniciativa privada. Em muitos casos, especialmente em nossa região, são os servidores públicos as únicas pessoas nas famílias com algum poder de compra preservado. E não é incomum que sejam, nesse cenário, as únicas pessoas responsáveis pela sobrevivência da família. A manutenção do poder de compra dos salários dos servidores não é um privilégio, e sim uma das estratégias de estímulo do Estado brasileiro para que a roda da economia continue a girar.
Senhor ministro, não transfira sua responsabilidade. Que bom que citou a geladeira do povo deste país. Nós, brasileiros, que financiamos o Estado com a riqueza produzida pela nossa força de trabalho, nesse momento de crise exigimos que os governos façam a sua parte. Se as famílias estão passando por dificuldades, com geladeiras vazias, é função do Estado garantir a sua renda e sua dignidade. Não se trata de um favor. Toda a riqueza controlada pelo Tesouro foi produzida pelo povo brasileiro, e a ele pertence. Vocês estão aí, temporariamente, para administrá-la. Essa é a realidade e a regra do jogo democrático. Não tente inverte-la, colocando os brasileiros uns contra os outros. Nós, servidores públicos, diferentemente do governo, defendemos geladeira cheia para todas as famílias e lutaremos para que a riqueza seja distribuída entre todos. A matemática e a lógica demonstram que o que propôs o senhor ministro é impossível. Não se divide a fome: zero (0) dividido por zero (0) não enche a geladeira e a barriga de ninguém.